::: OBF 2010 - PRIMEIRA FASE :::

 

Aconteceu hoje, em todo o território nacional, a primeira fase da OBF - Olimpíada Brasileira de Fìsica, evento oficial da SBF - Sociedade Brasileira de Fìsica.

Mais uma vez, alunos do nono ano do ensino fundamental até a terceira série do ensino médio toparam o desafio e, em pleno sabadão à tarde, realizaram a instigante tarefa de encarar uma prova de Física no espírito de, independente de resultados, aprender mais! Isso é fantástico, não?

E alguns dos meus alunos também entraram no espírito olímpico e foram para a escola à tarde, das 13h às 17h, para a alegria deste professor!


Meus alunos em ação na OBF 2010 - primeira fase

Eu, que sou um entusiasta das olimpíadas estudantis, já tive inúmeros alunos finalistas das OBFs, muitos medalhistas, e até um super campeão medalha de prata na OIbF - Olimpíada Ibero Americana de Física em 2004. 

OBF seleciona anualmente os melhores alunos de Física do Brasil para compor as equipes que vão defender o país nas olimpíadas internacionais de Física: OIbF - Olimpíada Ibero Americana de Fìsica e IPhO - International Physics Olympiad. 

Vale destacar que o Brasil foi o campeão nas últimas duas edições (2008 e 2009) da OIbF na qual participam países da América Latina mais Portugal e Espanha. Entre 26 de setembro e 02 de outubro de 2010 acontecerá a 15a. edição da OIbF/Panamá. Estamos na torcida por mais uma atuação brasileira de alto nível. A nossa equipe deste ano é composta pelos alunos Danilo Silva de Albuquerque (Fortaleza/CE), Elder Massahiro Yoshida (São Paulo/SP), Lucas Colucci C. de Souza (São Paulo/SP) e Matheus Barros de Paula (Taubaté/SP).

Desde o ano 2000 o Brasil participa da concorridíssima IPhO. O os resultados também têm sido bastante animadores, prova inconteste de que o ensino de Fìsica no Brasil, que já progrediu bastante nos últimos anos, ainda tem muito espaço para crescer em qualidade.  Basta investir pesado e incentivar cada vez mais alunos para encararem o desafio. Este é o trabalho de todos, desde a cúpula da SBF até os professores de cada escola pública ou particular do Brasil. 

Em 2010, em Zagreb, Croácia, todos os integrantes da equipe brasileira foram agraciados com medalhas. Liderada pelos profs. Euclydes Marega Jr., Roberto Dias, Ronaldo Fogo e Teixeira Jr., a equipe foi composta pelos alunos Cássio dos Santos Sousa (SP), Filipe Rudrigues de Almeida Lira (PE), Gustavo Haddad Francisco e S. Braga (SP), Rodrigo Alencar (CE) e Rodrigo Silva(SP). O resultado obtido na edição 2010 da IPhO é fruto do trabalho que a equipe de professores da OBF, através da Comissão Nacional COBF, da Comissão de Preparação e das CoordenaçõesEstaduais, com o apoio do CNPq, vêm realizando junto aos estudantes e escolas. A equipe deste ano começou sua maratona de estudos na edição 2008 da OBF. Desde então, eles receberam orientação da Comissão de Preparação, de seus professores e dos coordenadores estaduais da OBF, além de terem feito diversas provas seletivas sendo a preparação concluída com atividades intensivas no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Carlos, sob a orientação do Prof. Euclydes Marega Júnior.

Blog da OBF

Professores e alunos da equipe brasileira na IPhO 2010

Lembro ainda que na IPhO 2009 em Mérida/Mèxico, os brasileiros trouxeram duas medalhas de prata, duas de bronze e uma menção honrosa.

Quanto melhor é a participação do nosso país nas olimpíadas internacionais de Física, mais nos sentimos na responsabilidade de continuarmos crescendo. E isso é desafiador! É o combutísvel para sermos cada vez melhores!


Para saber mais


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Um forte abraço. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (@Dulcidio)
às 22h24





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  ::: CHUVA DE METEOROS E PLANETAS PARA OBSERVAR :::

Entre hoje e amanhã, de 11 para 12 de agosto, teremos o máximo das Perseídeas, uma Chuva de Meteoros típica desta época do ano.

Você sabe o que é uma Chuva de Meteoros? Conhece a sua origem? Entende porque ela sempre acontece na mesma época a cada ano?

Neste post vou tentar explicar todos estes detalhes. Acompanhe.

 

:: O que é um Meteoro?

SpaceWeather - Antal Igaz e Istvan Tepliczky

Meteoro registrado em 11/agosto/2009 na Hungria

Já aconteceu de você estar olhando para o céu noturno e, repentinamente, um ponto luminoso surgir "do nada" e deixar um rastro bem brilhante e persistente contra o fundo negro? É o que muita gente chama de estrela cadente mas que de estrela não tem nada. Trata-se apenas de um fragmento de matéria, geralmente um pequeno grão que, vindo do espaço, em alta velocidade, atraído pela gravidade terrestre, penetra na alta atmosfera e, por atrito, superaquece e vaporiza-se, deixando um rastro de material incandescente pelo caminho. O efeito visual é sempre muito bonito.

O nome correto deste fenômeno astronômico é meteoro. Como a Terra está sendo bombardeada por matéria vinda do espaço o tempo todo, em qualquer noite é possível ter a sorte de ver pelo menos um meteoro. Basta estar olhando na hora certa para o lugar certo! E, preferencialemente, estar num lugar escuro, longe das luzes da cidade, para garantir boas condiçõe de observação. Depois de uns minutos no escuro, a pupila dilata e a retina é dopada com uma substância que potencializa a sensibilidade dos bastonetes, células fotosensíveis do fundo do olho que têm a função de dar brilho às imagens. Nesta situação ideal o seu olho está bem adaptado para ver até mesmo objetos muito tênues. Se o céu estiver limpo, o show é garantido!

NASA/Pete Lawrence

Meteoro (Perseídas) fotografado em 12/agosto/2009 (clique para ampliar)

:: O que é uma Chuva de Meteoros?

adaptado de observatorio.ufmg.br

Terra atravessando uma nuvem (rastro) de poeira de um cometa

Imagine agora que a Terra esteja passando por uma região da sua órbita ao redor do Sol na qual há muitos fragmentos de matéria concentrados, geralmente restos de poeira de um cometa que já esteve aqui por perto da nossa estrela e, portanto, mais perto do nosso planeta. Ao atravessar esta nuvem de fragmentos, a incidência de meteoros será muito maior, concorda? Aí não teremos um ou outro meteoro numa noite mas, certamente, dezenas por hora. Chamar este fenômeno de "chuva"  não é nenhum exagero. Literalmente "chovem" meteoros, como pode ser visto na foto abaixo que mostra 96 meteoros registrados desde o por do Sol do dia 11 de agosto de 2009 até o amanhecer do dia segunte.

Chris Peterson

Foto montagem feita no Colorado, USA

A grande vantagem da Chuva de Meteoros é que sabemos a sua origem, ou seja, de onde vêm os meteoros. Assim podemos selecionar uma região-alvo no céu para ficarmos olhando.  Não há como saber a hora certa dos meteoros. Mas sabemos o lugar certo, ou seja, a constelação onde eles vão ocorrer. Aí fica fácil. É só escolher um local escuro, longe da poluição luminosa da cidade, deixar os olhos se adaptarem às condições de baixa luminosidade, e aproveitar o espetáculo!  É o que nos mostra a imagem abaixo, feita pela NASA, destacando onde ocorre a Chuva de Meteoros conhecida como Perseídeas que acontece na constelação de Perseus exatamente nesta época do ano e que tem o seu máximo entre hoje e amanhã.

NASA

Perseídas, na Constelação de Perseus

Espera-se hoje uma taxa que pode chegar a até 100 meteoros por hora, quase dois por minuto. No ano passado o obsevatório Cloudbait no Colorado, Estados Unidos, chegou a registrar cerca de 70 meteoros por hora nesta mesma época (veja gráfico com as medidas abaixo).

Cloudbait Observatory/Colorado
 

Aqui no Brasil, nesta época, a Constelação de Perseus nasce por volta das 3h da manhã. Quem quiser ver Perseídeas vai ter que madrugar e buscar um local longe das luzes da cidade. O espetáculo vale o esforço! Veja logo mais abaixo um roteiro observacional para esta quarta-feira que tem também outros fenômenos astronômicos bem interessantes para serem observados.

 

:: As Principais Chuvas de Meteoros

Ao longo do ano, na medida em que a Terra vai evoluindo em sua órbita, vai passando por regiões onde existem maiores concentrações de fragmentos de matéria, geralmente poeira ou pequenos grãos que se desprenderam de algum cometas. Assim, a cada mês, como sabemos onde a Terra está, podemos prever as Chuvas de Meteoros.

A tabela abaixo mostra as principais Chuvas de Meteoros destacando o dia em que ocorrem seus máximos, a taxa esperada (em meteoros por h) e a constelação à qual estão associadas, ou seja, a constelação onde o fenômeno ocorre. Taurídeas, por exemplo, são meteoros que "brotam" na constelação de Touro entre o começo e o meio de novembro e atingem uma taxa de 10 meteoros por hora, bem menor que Perseídeas que tem uma taxa média de 80 meteoros por hora mas que pode ser um pouco maior.

 

:: Roteiro observacional para a noite de 11 de agosto atravessando a madrugada de 12 de agosto

O céu está uma festa! Muita coisa bacana para observar! Confira:

  1. Começo da noite de 11 de agosto
    Logo ao cair da tarde, por volta das 18h, já com o céu escurecendo, podemos acompanhar a conjunção de Mercúrio, Vênus, Marte, Saturno e a Lua minguante. Todos os cinco astros podem ser vistos a olho nu como pontinhos luminosos no céu, como se fossem estrelas, logo depois que o Sol se põe, a oeste (veja mais dicas de observação dos planetas neste post). Vênus é o maior (em tamanho aparente) e o mais brilhante dos quatro planetas. Por isso ele aparece primeiro no céu e logo se destaca como um ponto bem brilhante, com aspecto estelar aparente.
    Observação garantida dos planetas até por volta das 21h quando o último deles (Marte) estará descendo por trás do horizonte oeste.
    Esta conjunçlão dos cinco astros ainda poderá ser vista na quinta-feira e na sexta-feira, no mesmo horário, com a Lua próxima aos planetas. Depois a Lua sai de cena mas os planetas ainda podem ser observados nesta mesma região até mais ou menos o final de agosto.
  2. A partir das 21h de 11 de agosto
    Quando os planetas em conjunção estiverem se pondo a oeste, Júpiter estará nascendo a leste e, com o passar do tempo, com a rotação da Terra, ascendendo no céu. A partir das 23h, já mais alto em relação ao horizonte,  ele será visto facilmente a olho nu com o aspecto de uma estrela bem brilhante. O aspecto de estrela é apenas aparente. Você sabe que Júpiter é, na verdade, um planeta. Aliás, um gigante gasoso, o maior planeta do Sistema Solar.
  3. A partir das 3h da madrugada do dia 12 de agosto
    Você pode acompanhar a ascensão de Júpiter no céu. E, mais ou menos quando ele estiver a pino, por volta das 3h da madrugada, a constelação de Perseus estará nascendo na direção nordeste (entre o norte e o leste). É nesta região que você deve olhar para observar o máximo de Perseídeas, a Chuva de Meteoros que deve ter uma taxa superior a um meteoro por minuto. 
    A chuva de Meteoros prossegue até o próximo dia 24 de agosto e, portanto, ainda poderá ser observada nas próximas madrugadas. Mas a taxa de incidência de meteoros, que é máxima hoje, vai caindo gradativamente.

Clique aqui para abrir (noutra janela) uma simulação em Flash, de hora em hora, do céu da noite de 11 de agosto e da madrugada de 12 de agosto para a minha região, interior de São Paulo (mas que vale, com boa aproximação, para todo o território nacional). Nesta simnulação mostro o céu detalhado para os os três passos acima. As imagens simuladas vão ajudá-lo nas observações que espero sejam muito proveitosas e, especialmente, divertidas!

Boas observações! Depois deixe um comentário do que conseguiu ver e, quem sabe, fotografar.


Upgrade [11/agosto/2010] - Registros Fotográficos 

11 de agosto

Cinco astros em conjunção (clique para ampliar - foto com legendas)

Clique aqui para ver a foto acima ampliada sem legendas.

11 de agosto

Detalhe da Lua acompanhada de Mercúrio (clique para ampliar)

Você não viu? Não tem problema. Nesta quinta (12) e também na sexta (13) o espetáculo continua. Leia o texto acima para saber mais detalhes! Siga as simulações do céu para ajudar nas observações. 

Aproveitei o embalo e registrei também as constelações do:

  • Cruzeiro do Sul e Centauro
  • Escorpião (Note que Antares, alfa desta constelação, é bem avermelhada. Trata-se de uma estrela gigante vermelha com raio 800 vezes maior do que o raio do Sol e que está a cerca de 600 anos-luz da Terra.)


Upgrade [12/08/2010]  - Galeria de Fotos de SpaceWeather


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prof. Dulcidio Braz Júnior (@Dulcidio)
às 01h01





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  ::: POR QUE O BAFO É 'QUENTE' MAS O SOPRO É 'GELADINHO'? :::

fotomontagem

No desodorante spray o jato também sai "geladinho"

Estou terminando Termodinâmica com meus alunos da segunda série.

Na semana passada pedi a eles que fizessem em sala um experimento simples, mas de resultando contundente. Foi divertido! Sugiro que você também o faça agora. Espero que você goste da ideia. É o seguinte:

  1. Inspire. Segure o ar por uns segundos. E solte-o na palma da mão, com a boca aberta. Trocando em miúdos, dê uma baforada na palma da mão.
    Perguntas: O ar que sai da boca está "quente" ou "frio"(1)? Proponha uma explicação física para o que observou.
  2. Inspire. segure o ar por uns segundos. E solte-o na palma da mão, agora fazendo biquinho. Trocando em miúdos, dê uma sopradinha na palma da mão.
    Perguntas: E agora, o ar que sai da boca está "quente" ou "frio"? Proponha uma explicação física para o que observou.

O experimento acima nos perminte facilmente concluir que o bafo é "quente" mas o sopro, ao contrário, é "geladinho"! Como pode o mesmo ar sair com maior temperatura(2) com a boca aberta e com temperatura mais baixa quando fazemos biquinho? O que o biquinho tem a ver com tudo isso? Tem explicação física para esta aparente contradição?

Mais uma vez sou obrigado a observar como, incrivelmente, a Física está presente em tudo! Até numa soprada ou numa baforada! Não é mesmo?

Então vamos às explicações à luz da ciência ...

 

:: Explicação

Fora do corpo, o ar, que é uma mistura de gases, encontra-se na temperatura ambiente, geralmente menor do que a temperatura interna do corpo humano que, como em qualquer mamífero, fica em torno de 36,5oC.

Quando você inspira e segura o ar nos pulmões, o seu corpo funciona como uma "fonte quente" pois, por estar numa temperatura maior, vai cedendo calor Q (energia térmica) para o ar que tem a sua temperatura aumentada, ou seja, fica mais "quentinho". Quanto mais tempo segurar o ar nos pulmões, mais perto dos 36,5oC ele vai chegar. Assim, quando você expira com a boca aberta, o ar sai sensivelmente mais "quente" do que entrou e por isso dizemos que o bafo é "quente". Até aqui nenhum problema, certo?

Mas agora vem a parte mais legal desta história: por que fazendo biquinho o ar que vem mais "quente" dos pulmões sai mais "geladinho" do que entrou? Não era para sair "quente" do mesmo jeito?

Era. Mas, se saiu mais "frio", com certeza perdeu energia. Concorda? E desta vez não foi energia na forma de calor Q porque não temos uma "fonte fria" para roubar calor do gás. E, mesmo que tivéssemos, o gás sai da boca, pelo biquinho, tão rapidamente que não dá tempo de trocar calor! Lembre-se sempre de que os processos de troca de calor geralmente são bem lentos. Desta forma somos levados à concluir que o gás perdeu energia de outra forma que não apenas calor. E aí está o "truque" físico. Veja:

  1. Quando um gás expande (aumenta de volume), perde energia na forma de trabalho, ou seja, cede energia mecânica;
  2. Quando um gás sofre compressão (diminui de volume), ganha energia na forma de trabalho, ou seja, recebe energia mecânica.

Note que, ao soprarmos, logo que o ar atravessa o biquinho, aumenta repentinamente de volume, ou seja expande. Assim perde energia na forma de trabalho para o ambiente. Esta energia, retirada do gás, faz com que ele esfrie! Genial, não?!

É exatamente o mesmo efeito que acontece com desodorante spray que tem um jato  sempre "geladinho". O jato, que está na temperatura ambiente, ao passar pelo buraquinho da válvula, sofre aumento repentino de volume (expansão). Logo, perde energia na forma de trabalho. As moléculas do gás ficam (em média) menos agitadas.  O gás esfria!

Apresente este experimento para seus amigos, familiares, etc. Depois da parte prática, pergunte: por que o bafo é "quente" mas o sopro é "geladinho"? Aposto que 99% não saberá responder!  Bem humorado

 

 

:: Aprofundando a Teoria (para quem gosta de ir mais longe...) 

Cabe aqui uma observação muito importante: estamos acostumados a associar variações de temperatura apenas com "ganhar" ou "perder" calor Q. Todos sabemos (e já experimentamos na cozinha) que colocando água numa panela sobre a chama do fogão, o líquido ganha calor e esquenta. Ao contrário, se colocarmos o recipiente com água na geladeira, há perda de calor e o líquido esfria. Isso está certo, sem dúvida.

Mas num gás a troca de calor Q não é a única forma de alterar a sua energia interna U  e, portanto, a sua temperatura T. E aí está o segredo físico do experimento descrito acima que, apesar da sua simplicidade, dá o que falar!

Para entender melhor como pode ser isso, vamos detalhar o que acontece termodinamicamente num gás.

Num gás temos n moléculas, numeradas para efeito de contagem de 1 a N. Acima do Zero Absoluto, T = 0K (zero kelvin), cada molécula está se movendo com uma velocidade V própria que nomeamos de V1 até VN. Dizemos que o gás tem uma energia interna U que corresponde à soma das energias cinéticas EC de cada uma das moléculas, ou seja:

Temperatura é um conceito físico que corresponde a uma medida macroscópica do grau de agitação microscópico médio das partículas do sistema. Assim, quanto maior a temperatura T do gás, mais agitadas estão as suas moléculas que, portanto, têm velocidades típicas maiores ou, se preferir, energias cinéticas individuais maiores (em média). Trocando em miúdos, o gás com maior temperatura T encerra como um todo uma quantidade maior de energia interna U. Podemos expressar esta ideia matematicamente dizendo que U e T são grandezas diretamente proporcionais(3)

Logo, aumentar a temperatura T de um gás significa aumentar a sua energia interna U. Ao contrário, baixar a temperatura T do gás quer dizer diminuir a sua energia interna U. Podemos aumentar ou diminuir U depositando ou sacando energia no gás.  E isso pode ser feito, na prática, de duas maneiras:

  1. Dando ou retirando uma quantidade de calor Q, o que chamamos tecnicamente de energia térmica; ou
  2. Dando ou retirando uma quantidade de energia mecânica do gás, o que em Física chamamos de trabalho τ.

E, na prática:

  1. Dar calor para o gás singifica colocá-lo em contato com uma fonte quente (corpo com temperatura alta). Retirar calor do gás singifica colocá-lo em contato com uma fonte fria (corpo com temperatura baixa).
  2. Dar trabalho para o gás singifica comprimí-lo, provocando diminuição do seu volume. Retirar trabalho do gás singifica deixá-lo expandir, ou seja, aumentar de volume.

O esquema abaixo resume como pode um gás trocar energia com o meio externo, ou seja, ganhar ou perder energia de duas formas: 1. calor (energia térmica) e 2. trabalho (energia mecânica).

Note no esquema acima que existe uma convenção invertida(4) de sinais para calor e para trabalho:

  • Calor absorvido pelo gás é positivo (Q > 0) e calor cedido pelo gás é negativo (Q < 0)
  • Trabalho recebido pelo gás é negativo (τ < 0) e trabalho realizado pelo gás é positivo (τ > 0

E aqui entra a Primeira Lei da Termodinâmica que, de forma bastante simples e lógica, faz um balanço de energia prevendo que a varianção da energia interna do gás (ΔU) depende da quantidade Q de calor trocado (recebido ou cedido) e também da quantidade τ de trabalho (igualmente recebido ou cedido): 

Assim, não importa se a energia trocada com o meio externo é na forma de calor Q ou na forma de trabalho τ. O que vale é: 

  • Energia que entra (Q ou τ) faz a energia interna aumentar (ΔU > 0) ⇒ Temperatura aumenta (ΔT > 0) ⇒ GÁS ESQUENTA
  • Energia que sai (Q ou τ) faz a energia interna diminuir (ΔU < 0) ⇒ Temperatura diminui (ΔT< 0) ⇒ GÁS ESFRIA 

No caso do sopro, o ar que vem dos pulmões sofre uma expansão adiabática, ou seja, aumenta de volume (perde energia na forma de trabalho) sem trocar calor (Q = 0). Aplicando a Primeira Lei da Termodinâmica temos:

É óbvio que ΔU < 0 pois o gás (ar do sopro) não ganhou energia, só perdeu! Ao expadir o gás perdeu energia na forma de trabalho! Assim concluímos que cada partícula do gás ficou (em média) com menos energia cinética, ou seja, com velocidade menor. Dizer que energia interna U do gás diminuiu é o mesmo que reconhecer que as suas moléculas ficaram (em média) menos rápidas, ou seja, menos agitadas.  E é justamente por isso que podemos afirmar que a temperatura T, uma medida do grau de agitação das partículas, ficou menor.

Conclusão: no sopro o ar sai com menor temperatura e temos a sensação de que ele está "geladinho". É Física pura!


(1) Quente ou frio são conceitos relativos, dependem de quem mede. Por isso usei aspas. O ideal é medir a temperatura(2) de forma objetiva usando um termômetro. Na prática, para piorar um pouco as coisas, a sua mão pode facilmente adaptar-se à situações térmicas. Se ficar, por exemplo, muito tempo lavando louça, no começo parece que a água da torneira da pia está mais fria. Com o passar do tempo vai dando a impressão de que a água está menos fria do que antes. Isso acontece porque o seu organismo adaptou-se à situação térmica. Quando usamos a mão para comparar a temperatura do ar no bafo e no sopro não estamos sendo rigorosos. É apenas um artifício simples para diferenciar temperaturas. Certo?
(2) 
Temperatura, em Física, é uma medida macroscópica do "grau médio de agitação" das partículas (que é, na prática, um efeito microscópico). Num gás, quanto maior a temperatura, maiores são as velocidades de translação de cada molécula e, portanto, maior a energia cinética acumulada no sistema (soma da energia cinética de todas as moléculas do gás). Assim, quanto mais quente é um gás, maiores são (em média) as velocidades de suas partículas. Ao contrário, quanto mais frio, menores são (em média) as velocidades das partículas do gás. 
(3) Para um gás idealizado a relação estatisticamente correta entre U e T é U = 3nRT/2 onde n é o número de mols do gás, R = 8,31 J/mol.K é uma constante típica dos gases ideais e T a sua temperatura. Se T estiver em kelvin (K) a energia interna U estará em joule (J).
(4) Historicamente, os conceitos de calor e de trabalho foram desenvolvidos de forma separada. O trabalho, da Mecânica, e o calor, da Calorimetria, acabaram ficando com sinais opostos. Quando se encontraram na Termodinâmica, para contornar o "problema" do sinal invertido, subtraímos (em vez de somar) o trabalho do calor na Primeira Lei. E fica tudo em paz. 

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Um forte abraço. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (@Dulcidio)
às 16h23





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Dulcidio Braz Jr
Físico/Professor, 49 anos

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