::: NEYMAR CRUZA E FAZ O GOL: REALIDADE OU MONTAGEM? :::

Antes de mais nada, se você ainda não viu o vídeo acima, novo viral da nikefutebol.com, veja antes de continuar a ler este texto.

No comercial disfarçado de realidade, Neymar, a mais nova sensação do Santos (talvez do futebol mundial), faz um cruzamento bem na lateral do campo e corre até a pequena área em tempo de receber a própria bola cruzada e marcar um gol. Ainda que sem goleiro, o feito é incrível! E reforça o slogan da nova chuteira do patrocinador: velocidade na veia!

As imagens são bem convincentes para os olhos. Mas todo mundo que gosta de futebol e está bem acostumado com cobranças de escanteio sabe (da prática) que a bola lançada chega na área num tempo muito menor do que o gasto pelo vôo da bola lançada pelo Neymar. É minimamente estranho mas, como as imagens confirmam o feito, o vídeo já está causando polêmica na internet.  

Muita gente tem perguntado "será que tem montagem"? Muitos estão mandando o material por e-mail para amigos e assim a polêmica se propaga rapidamente. É exatamente este o espírito do viral. Todo mundo acaba ficando curioso sobre a possibilidade física de um jogador cruzar a bola, dar um pique de mais de 30 m, e chegar na área antes da bola! Seria apenas uma questão de habilidade? Ou, por mais hábil que fosse o jogador, esta façanha seria fisicamente impossível?

Recebi (via e-mail) estes questionamentos vindos da minha querida amiga e blogueira Rosana Hermann do Querido Leitor. Como sou fiel QL e admirador do seu trabalho, resolvi analisar as cenas do Neymar com mais atenção e critério.

Antes de mais nada, salvei o vídeo em flv (flash vídeo) e fiz a conversão para wmv para poder rodar no Windows Movie Maker, o único software de edição de vídeo que tenho aqui comigo pois já vem com o Windows. Não é um editor sofisticado mas tem um reloginho que permite acompanhar e medir instantes importantes das cenas. Não chega a ser 'frame a frame', mas quebra um galho. Com o Movie Maker descobri que:

  1. Neymar faz o lançamento no instante t1 = 25,68s;
  2. Mesmo sendo muito rápido, como todo mortal ele tem um tempo de reação e só dá o primeiro passo do pique em direção à área no instante t2 = 26,00s;
  3. Ele termina o pique, em linha reta até a pequena área, no instante t3 = 28,64s;
  4. Finalmente, após o pique, vira-se para a esquerda, em direção ao gol, a 90 graus em relação à trajetória inicial da corrida, e reencontra a bola, chutando-a para as redes no instante t4 = 29,76s.

De posse destas medidas, vamos raciocinar um pouco mais fisicamente. 

:: Primeira análise (simplista)

Segundo o Inmetro, um campo de futebol oficial deve ter largura entre 75m e 90m (veja aqui) . Vamos considerar o valor mínimo de 75m. Se Neymar atravessou correndo a metade da largura do campo, então são 75m/2 = 37,5m. Considerando o tempo entre o primeiro chute (lançamento) e o segundo chute (ao gol) teremos 29,76s - 25,68s = 4,08s.

Logo, a velocidade média de Neymar entre os dois contatos com a bola deveria ser de  V = DS/Dt = 37,5m/4,08s = 9,19m/s, valor bem próximo do recorde olímpico do jamaicano Usain Bolt que foi de 10,32 m/s (confira aqui)!

Meio "forçado" para um jogador de futebol cujas características atléticas são bem diferentes daquelas de um corredor olímpico, não? E, se observarmos bem no vídeo, veremos que Neymar até arranca e corre bastante. Mas nada parecido com os incríveis piques olímpicos dos 100m rasos!

Conclusão: numa primeira análise, ainda que simplista, já dá para começar a perceber que o vídeo tem tudo para ser montagem.

Observações importantes

  • Se o campo for mais largo do que 75m, aumenta o denominador da conta da velocidade média V acima e seu valor fica ainda maior, o que reforça a conclusão acima.
  • Ao calcular a velocidade "média" desprezei a aceleração no arranque o que na prática provoca "perda de tempo" e faz com a velocidade instantânea, no meio do pique, fique ainda mais próxima do recorde olímpico. Mia suma vez isso confirma a conclusão.

 

:: Segunda análise (um pouco mais criteriosa)

Se considerarmos que o pique do Neymar em direção à área começa na verdade em t2 = 26,00s e termina em t3 = 28,64s teremos um tempo ainda menor de corrida, ou seja, Dt = 28,64 - 26,00 = 2,64s. Com esse tempo, para percorrer os mesmos 37,5 m Neymar dever ter velocidade média de V = DS/Dt = 37,5m/2,64s = 14,2 m/s. Aí já é demais! 37% maior do que a velocidade do campeão olímpico Usain Bolt! Definitivamente, não dá!

Conclusão: levando em conta só o verdadeiro pique fica humanamente impossível realizar o feito! O vídeo é uma montagem, com truques de edição.

 

:: E tem mais (detalhes ópticos do vídeo e "tapinhas" na edição)

Se reparar bem, no começo do vídeo a sombra de Neymar está para a esquerda e pequena. Logo o Sol está para a direita (lado oposto ao da sombra) e bem alto no céu (quanto mais alto o Sol menor o comprimento da sombra).
O céu está muito claro com o Sol alto. Isso ajuda a forçar a imagem registrada a ficar superexposta. O céu fica quase branco e quando a bola passa contra ele quase não aparece. Excelente fundo para esconder a bola quando for preciso ou criar uma bola no computador! Sinceramente, acho que toda a trajetória da bola (pós lançamento) é montagem, até porque para demorar 4s em "vôo" a parábola(*) deveria ser muito mais alta e a bola parece não subir tanto. Concorda? 

Note ainda no vídeo que dá para ver a trajetória da bola até por volta de 27,60s. Depois ela "some" (contra um prédio cinza de fundo). A bola só reaparece em torno de 29,20s, ainda com o prédio ao fundo, mais ou menos no ponto em que Neymar deixa de dar o pique adiante e vira-se para a esquerda. Passando o vídeo bem devagar dá para ver que a imagem do jogador ao longe não é nítida. Ele está indo adiante e, repentinamente, já aparece correndo para a esquerda, numa trajetória perpendicular à primeira! "Chuto" (sem querer fazer trocadilho algum) que aí tem um corte de câmera! Bem disfarçado, é verdade. Muitíssimo bem feito, mas mais um truque de edição para forçar o reencontro do jogador com a própria bola cruzada!

E não podemos deixar de observar ainda  que o vídeo está finalizado em baixa resolução. Tudo leva a crer tratar-se de um registro caseiro, para dar a ideia de que foi feito num momento descontraído do atleta, por algum amigo cinegrafista amador, e não numa armação high tech! Tal fato, ao mesmo tempo em que dá uma certa veracidade à cena, só ajuda a disfarçar possíveis cortes e emendas. Certo? Tudo muito bem pensado!

 

:: Seria possível a um jogador de futebol realizar esta jogada? 

No cinema nacional a jogada já foi feita por Renato Aragão no filme Os Trapalhões e o Rei do Futebol - 1986 (confira aqui). Na realidade, nunca! 

Alguns jogadores de futebol têm explosão para conseguir dar piques próximos a 30 km/h, pouco mais de 8 m/s (vide Ronaldo, o "fenômeno", no segundo gol da segunda partida da semifinal do Paulistão massacrando meu querido Tricolor!). Nesta velocidade, para percorrer os 37,5 m até a área um jogador gastaria (sem contar tempo de reação e aceleração) cerca de Dt = DS/V = 37,5 m/8m.s-1 = 4,7s.   

Se conseguir chutar a bola numa trajetória parabólica bem alta, ou dar um balão bem alto no jargão do futebol, "em tese" conseguirá pouco mais 5s de vôo para reencontrá-la lá na frente depois do pique. Mas precisamos calcular os parâmetros deste chute (velocidade inicial e ângulo de tiro) para ver se isso seria humanamente viável. E, é claro, mesmo se for fisicamente viável, o jogador deveria ter muita habilidade e treinar bastante a pontaria para conseguir fazer a bola voar alto e chegar na área em boa posição para o chute. Prometo esse cálculo(*) e sua análise para outro post, em breve, até para que este texto de hoje não fique gigante! Combinado?

Mas, pelo que vi e medi, concluo: este vídeo do Neymar é uma montagem, muito convincente, mas fisicamente "forçada"! Veja novamente, com as minhas considerações em mente. E vai concordar comigo!    


(*) O cálculo dos parâmetros da trajetória parabólica da bola, bem mais técnicos, ficam desde já prometidos para um outro post.  
Já publicado aqui no Física na Veia!

 





Um forte abraço. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (@Dulcidio)
às 08h47





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  ::: XXIV Oficina de Física - Física Moderna :::

Acontece no próximo dia 9 de maio a XXIV edição da Oficina de Física "Cesar Lattes", a primeira das quatro previstas para o ano de 2009.

O evento, promovido pelo IFGW - Instituto de Física "Gleb Wataghin" da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas,  consiste de palestras de divulgação científica centradas em temas da pesquisa atual. Nesta Oficina serão abordados tópicos da Física Moderna.

As inscrições já estão abertas a todos os interessados, em especial a professores do ensino médio, e podem ser feitas aqui onde você também encontra mais informações. 

Já participei de várias Oficinas de Fisica do IFGW e recomendo. São sempre eventos de muita qualidade e que trazem boas informações para quem deseja estar bem informado sobre as novidades da Física. Vou tentar estar presente nesta próxima edição também.


Já publicado aqui no Física na Veia!





Um forte abraço. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (@Dulcidio)
às 21h38





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  ::: SERÁ QUE TEM UM E.T. NO SEU QUINTAL? :::

Aposto que quando você leu o título deste post pensou logo em homenzinhos verdes. Certo? Mas não estou me referindo a estes extraterrestres. Talvez eles até existam, mas não há ainda nenhuma comprovação científica desse fato. 

Refiro-me aos meteoritos, fragmentos de matéria que bombardeiam o nosso planeta a todo momento e que, eventualmente, chegam ao solo. Eles vem de fora do planeta e, portanto, são ETs. E podem estar muito mais perto do que você imagina, aí mesmo no seu quintal ou num terreno baldio. Como não passam de rochas, não vão chamar a sua atenção num primeiro momento.

E antes que você me pergunte que graça tem em encontrar uma pedra, saiba que meteoritos não são meras pedras. São restos de matéria da época da formação do Sistema Solar, fragmentos de corpos interplanetários que podem estar viajando pelo espaço por bilhões de anos nos trazendo informações sobre o passado e a gênese do nosso sistema planetário. Encontrar um meorito é como encontrar a ossada de um dinossauro! Meteoritos são verdadeiros fósseis cósmicos. E imagina só, com tanto lugar para aterrisar, foram cair aí pertinho de você! Sorte!

Foi pensando nisso tudo que a profa. Maria Elisabeth Zucolotto do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, criou um projeto especial para catalogar meteoritos que caíram em solo brasileiro.  

A OBA - Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica está ajudando a divulgar o interessantíssimo projeto (veja o cartaz) cujo site é www.meteoritos.com.br.

 

:: Você também pode ser um 'caçador' de meteoritos 

Mas a primeira pergunta que vai querer fazer (pois é a primeira que todos nós fazemos!) é "como vou saber se uma pedra que encontrei em campo aberto é um meteorito ou não?".

Para começar a brincadeira científica, aqui vão algumas dicas:

  • Crosta de fusão - os meteoritos apresentam uma fina crosta negra resultante da queima que sofrem pelo atrito com a atmosfera. 
  • Presença de ferro e níquel - a maioria dos meteoritos, se lixados, vão apresentar pintinhas de brilho metálico (meteoritos rochosos) ou interior com aparência de aço sólido (meteoritos metálicos).
  • Magnetismo -  é comum que meteoritos sejam atraídos por imãs. Nos meteoritos metálicos a atração é bem mais intensa.
  • Sulcos superficiais - meteoritos costumam apresentar sulcos, ou seja, depressões na sua superfície. Não é comum meteoritos apresentarem calombos (protuberâncias).
  • Densidade grande -  por conterem metais os meteoritos costumam ser bem densos e, portanto, são bem mais pesados do que uma pedra do mesmo tamanho. Dá para sentir isso na mão ao pegá-los.
  • Forma - meteoritos não apresentam uma forma definida e característica mas é usual que possuam cantos arredondados.

Mas há exceções. Meteoritos rochosos do tipo acondrito, bem mais raros, não vão apresentar as características acima, exceto a crosta de fusão e regmaglitos.

Veja a imagem abaixo com exemplos de meteoritos típicos e com as caracteristicas descritas acima. 

Estas são as dicas básicas. E, para ajudá-lo a sistematizar a busca por meteoritos, segue abaixo um verdadeiro algoritmo, uma sequência de passos para selecionar fortes candidatos a meteoritos (ou ETs) que encontrar nas suas buscas. Clique na imagem abaixo para abrir versão maior (legível).

 Se você encontrar algum candidato a meteorito, faça contato a a profa. M. Elisabeth Zucolotto através do seguinte endereço:
Museu Nacional - Setor Meteorítica
Quinta da Boa Vista - São Cristovão
Rio de Janeiro - RJ
CEP 20940-040 

Você pode entrar para a história da Meteorítica brasileira como o "pai da criança", ou seja, descobridor oficial de mais um meteorito em solo brasileiro. E o meteorito vai ganhar o nome da sua cidade que, de carona, também entra para a história da astro ciência nacional!


Para fazer download

  • Todas as imagens e informações deste post foram retiradas de um folder muito mais completo que você pode baixar pelos seguintes links: frente e verso.

 


 
Post comemorativo do Ano Internacional da Astronomia no Brasil.


Já publicado aqui no Fìsica na Veia!





Um forte abraço. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (@Dulcidio)
às 15h28





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Dulcidio Braz Jr
Físico/Professor, 49 anos

São João da Boa Vista
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