::: SETE MENTIRAS DISFARÇADAS DE CIÊNCIA :::

Hoje, primeiro de abril, tradicional Dia da Mentira, quero mostrar para você como muitas supostas verdades científicas podem não passar de mentiras disfarçadas. Muita gente, sem maldade, apenas mal informada, acaba mentindo e propagando conceitos errados em nome da boa Ciência. E, já que “sete é conta de mentiroso”(*), escolhi sete exemplos destas mentirinhas (quase) ingênuas. Mentira 1:
O Sol nasce sempre no Leste O correto é dizer que Sol nasce “do lado leste”. Mas não exatamente no ponto cardeal leste. Isso se deve ao fato de que o eixo de rotação da Terra tem uma inclinação em relação ao plano orbital. A percorrer a trajetória elíptica ao redor do Sol, sem mudar esta inclinação, a região do planeta mais iluminada pelo Sol vai mudando para cada época do ano. E é por isso que temos as estações do ano que são alternadas em cada hemisfério da Terra. Na prática o Sol faz um bamboleio ao redor do ponto cardeal leste. A rigor o Sol nasce exatamente a leste nos dois equinócios (21 de março e 23 de setembro). Em 21 de março o Sol está "caminhando" para o norte e estamos indo para o inverno. Em 22 de junho temos a noite mais longa do ano no hemisfério sul e o Sol encontra-se mais afastado do ponto cardeal leste, a noroeste. Em 23 de setembro o Sol "caminha" para o sul e estamos indo para o verão no nosso hemisfério. Em 22 de dezembro o Sol estará mas afastado do ponto cardeal leste, agora a sudeste e teremos a noite mais curta do ano. Para melhor visualizar a ideia, veja a simulação abaixo para a minha latitude de 23 graus sul. A linha vermelha marca o ponto cardeal leste. 
Mentira 2:
O Cruzeiro do Sul sempre aponta para o Sul A Constelação do Cruzeiro do Sul fica próxima ao pólo sul celeste, ponto imaginário onde o eixo (também imaginário) de rotação da Terra “toca a esfera celeste” (esfera também imaginária onde as estrelas e os planetas parecem estar grudados). E haja imaginação! A figura abaixo ajuda um pouco nesta arte de ver com o cérebro! astro.if.ufrgs.br
Logo, enquanto a Terra gira ao redor de si mesma, a uma taxa de 1 volta (360 graus) por dia (24h), vemos toda a Constelação do Cruzeiro do Sul (e todo o resto dos objetos no céu) girar ao redor do pólo sul celeste a uma taxa de 15 graus/h (360 graus/24 h). Para o Cruzeiro do Sul e qualquer outra constelação circumpolar o efeito é bem notável! Numa foto de longa exposição (como esta logo abaixo) registramos o movimento de rotação da esfera celeste ao redor do pólo sul celeste. astro.if.ufrgs.br
Por causa desta rotação a “cruz” pode aparecer “em pé”, “deitada” ou “inclinada”. Pode, enfim, estar em qualquer posição dependendo do dia do ano e da hora e, portanto, apontar para qualquer lugar, até mesmo para cima (ou para o espaço no referencial da Terra)! Quando está de "ponta-cabeça" normalmente está abaixo do horizonte. Veja nas simulações abaixo a posição do Cruzeiro do Sul para hoje às 18h, "deitado", e às 24h, "em pé".  Cruzeiro "deitado" às 18h de hoje
 Cruzeiro "em pé" às 24h de hoje
Então , por que falam tanto que o Cruzeiro do Sul serve para nos mostrar o sul? Isso fica para um outro post, tá? Mas é mentira das boas que o Cruzeiro do Sul sempre aponta para o sul! Na simulação acima, para às 18 h, fica bem claro que o Cruzeiro não está apontando para o sul (S)!
Mentira 3:
A Lua Cheia nasce enorme no horizonte Quando vemos a Lua Cheia no horizonte sempre ficamos com a sensação de que ela é enorme. Assim aparece nos filmes. Da mesma forma nos desenhos. Mas trata-se apenas de uma ilusão de óptica! A Lua Cheia, no horizonte, numa comparação visual simples com casas, edifícios, montanhas e outros elementos da paisagem, parece ser realmente enorme. Mas não é. 
Daqui da Terra vemos o disco lunar com apenas 0,5 grau aproximadamente. Muito pouco comparado a um círculo completo que tem 360 graus! astro.if.ufrgs.br
 Quer fazer uma experiência simples, porém bastante conclusiva? Estique o braço, com o dedo indicador para cima. A largura do dedo indicador, para seus olhos, será em torno de 1 grau. Claro que isso pode variar de pessoa para pessoa mas, em média, dá bem próximo de 1 grau. 
Assim, o dedo indicador na posição descrita deverá cobrir o equivalente a duas Luas Cheias! Espere a próxima Lua Cheia e faça você mesmo o teste. E verá como Lua Cheia aparentemente enorme some atrás do seu dedo indicador. Lua Cheia enorme no horizonte é outra mentira! [Quer saber mais sobre este assunto? Confira aqui!] Mentira 4:
No espaço a gravidade é zero NASA
Na ISS, a Estação Espacial Internacional, por exemplo, os astronautas ficam “flutuando”. Toda vez que vemos cenas dos astronautas eles parecem ser tão leves quanto plumas. Logo a conclusão (erradíssima!) é de que a gravidade no espaço é zero. Mas pense comigo: quem é que prende a ISS na Terra? É a gravidade terrestre, não é? Então por que esta gravidade mantém a ISS presa na sua órbita ao redor do planeta mas deixa de atrair os astronautas? Seria a gravidade seletiva? Ela só atrai “quem ela quer”? Segundo a Lei da Gravitação Universal de Isaac Newton, a gravidade decresce com o inverso do quadrado da distância ao centro do corpo que a provoca. Logo, será de fato nula somente a distâncias infinitas do corpo central. A ISS está a apenas uns 400 km afastada da superfície da Terra e, portanto, um pouco menos do que 7.000 km do centro da Terra. Muito pouco para a gravidade ser nula. Na verdade a gravidade terrestre lá na ISS vale mais ou menos uns 8,5 m/s². Bem diferente de zero e só um pouco menor do que o valor aqui na superfície que é de 9,8 m/s².!
Então por que os astronautas flutuam? Lamento dizer mas, na verdade, não flutuam. Eles estão em órbita o redor da Terra o que na prática é como estar em um elevador cujo cabo arrebentou e está caindo em queda livre. Como a nave e todo o seu conteúdo "caem" com a mesma aceleração, existe uma sensação de flutuação. Mas é só uma sensação de gravidade zero, uma ilusão mecânica capaz de enganar até mesmo os nossos sentidos. Por isso dizer que a gravidade no espaço é zero é outra mentira que assassina a boa Física!
[Quer saber mais sobre este assunto? Confira aqui!] Mentira 5:
O atrito sempre atrapalha E é por isso mesmo que o atrito deve ser eliminado ou pelo menos minimizado. Certo? Errado! Outra bobagem. É fato que muitas vezes o atrito dificulta as coisas. Todos sabemos que temos que colocar óleo lubrificante no motor de um automóvel para diminuir o atrito entre as suas partes internas móveis e evitar superaquecimento, o que poderia até fundir o motor (derreter e grudar as suas partes internas). Neste exemplo o atrito é mesmo prejudicial. Quando vamos fazer faxina e temos que arrastar móveis pela casa sabemos que o atrito não é parceiro. Ele joga contra e dificulta as coisas. Aqui também temos um outro exemplo de atrito que atrapalha. No entanto, quando andamos, empurramos o chão para trás por atrito com a superfície de contato com a sola do sapato. E o chão, por sua vez, nos empurra para frente, novamente por atrito. É o que chamamos de Ação/Reação, outra herança das fantásticas ideias de Sir Isaac Newton. 
Um automóvel também precisa empurrar o chão para trás para ser empurrado de volta para frente e conseguir se mover. Com pouco atrito entre o pneu e o solo o carro pode simplesmente patinar e não sai do lugar. É exatamente o que acontece quando um carro atola na lama.
Entendeu como nesses dois casos (uma pessoa ou um automóvel andando) o atrito ajuda o movimento? Logo, dizer que o atrito sempre atrapalha é outra mentira descarada! [Quer saber mais sobre este assunto? Confira aqui!] Mentira 6:
Quando um ônibus freia, um passageiro em pé é empurrado para frente Quem já pegou “busão” lotado e teve que ficar em pé sabe que a qualquer mudança de velocidade, seja no seu valor (em aceleradas ou freadas) ou na sua direção/sentido (nas curvas), nos sentimos empurrados para frente, para trás ou para os lados. Mas nestes casos não há forças nos empurrando. Na Física explicamos essa sensação falando sobre inércia, a “tendência que um corpo tem de permanecer em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme” a não ser que forças externas modifiquem esta tendência. Se o ônibus em movimento freia, temos a tendência de continuarmos nos movendo para frente, em linhas reta. A sensação é de fomos arremessados para frente. Mas é pura ilusão mecânica. Não há força alguma nos empurrando. Seguimos "no embalo", ou tecnicamente falando, por inércia.
 Ao contrário, se estamos parados dentro de um ônbus que por sua vez está parado em relação ao solo, temos a tendência a continuar parados. Se o ônibus arranca, continuamos parados em relação ao solo mas em relação ao ônibus ficamos para trás. O ônibus vai para frente e nós continuamos parados em relação ao chão, a não ser que seguremos em alguma parte do veículo para seguirmos solidários a ele. Isso provoca uma ilusão de sermos empurrados para trás. Mais uma vez não existe tal força! 
Da mesma forma, numa curva, tendemos a continuar em linha reta e, com o ônibus dobrando a esquina, teremos a impressão de sermos jogados para fora das curva. Novamente é a inércia, seguimos "no embalo", na tendência natural de continuarmos em movimento em linha reta enquanto apenas o ônibus faz a curva. A sensação de empurrão lateral é convincente. Mas é apenas uma sensação, sem forças de fato! 
[Quer saber mais sobre este assunto? Confira aqui!] Mentira 7:
Cobertor esquenta, ainda mais se for bem grosso 
Cobertor não esquenta. Nem fino, nem grosso! Se fosse verdade que cobertor esquenta, então você poderia cozinhar com cobertor. Sim! Qualquer alimento numa panela envolta por um bom e espesso cobertor de lã deveria esquentar e permitir o cozimento de alimentos. Mas não é o que acontece! O cobertor não é uma fonte de calor. Ele é apenas uma camada de material termicamente isolante, ou seja, que dificulta a condução da energia térmica (calor). Se for espesso vai provocar maior isolamento pois, quanto mas grossa a parede, mais difícil para o calor atravessá-la. Mas não é o cobertor quem esquenta. Somos nós mesmos quem nos aquecemos! Pense bem: num dia frio, como estamos muito mais quentes do que o ambiente ao nosso redor, perdemos muito calor para ele. E é isso que nos dá a sensação de frio intenso. Um cobertor isola termicamente o corpo humano do resto do ambiente frio evitando a perda excessiva de calor. Isso provoca uma sensação de conforto térmico. Mas note que quem esquenta é o próprio corpo que, através do seu metabolismo regula nossa temperatura em torno de 36,5 oC. Dizer que cobertor esquenta é outra mentira científica bastante conhecida! A não ser que sejam aqueles cobertores elétricos vendidos em países muito frios. Mas aí a conversa é outra pois a energia elétrica é convertida em calor por Efeito Joule em elementeos resitivos. Truquezinho bem conhecido na eletrodinâmica. [Quer saber mais sobre este assunto. Confira aqui!] ______________ Passe adiante este post e ajude a terminar com o ciclo vicioso das mentiras científicas. Mas só a partir de amanhã. Hoje é dia de mentir e de se divertir pregando peças nos amigos! (*) “Sete é conta de mentiroso”. Ouvi muitas vezes meus avós dizerem isso. É que, segundo o dito popular, toda conta de mentiroso termina em sete.
Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 00h48)
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