::: OLHAR O CÉU I :::
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 Região do Cruzeiro do Sul (clique para abrir versão maior) Adoro olhar o céu noturno. Sempre que chego em casa, mesmo depois de um dia de muitas aulas, cansado, tarde da noite e já com o carro devidamente estacionado na garagem coberta do condomínio, não resisto e tenho que dar uns passos para trás nem que seja só para uma espiada rápida no céu. E o que vejo, de frente para a garagem, é a região do pólo Sul celeste onde está o Cruzeiro do Sul, exatamente o que é mostrado na foto acima repleta de detalhes pois foi feita com longa exposição(1). Infelizmente não tenho tido tanto tempo para este deleite astronômico. O bacana é poder ficar horas observando o céu, especialmente em boa companhia. Para piorar, com o tempo chuvoso há dias, já perdi a conta de qual foi a última vez que olhei o céu noturno e vi alguma coisa que não fosse uma nuvem carregada. Mas não vejo a hora de poder ver as estrelas e os planetas novamente, nem que seja a olho nu. Aqui em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, temos um céu privilegiado! Mas este post não é apenas para contar para você este meu gosto (ou mania?) pessoal. É, principalmente, para incentivar pessoas para que olhem para o céu. Mesmo sem um binóculo, uma luneta ou telescópio(2), a experiência tem tudo para ser marcante. Mas você tem que saber alguns "truques" básicos para tirar melhor proveito da experiência. Confira a seguir.
:: O Mecanismo da Visão pt.wikipedia.org
 Dilatação da pupila (clique para abrir gif animado ~ 4,8Mb) Em primeiro lugar é preciso lembrar que os nossos olhos se adaptam às condições de luminosidade ambiente. Quando tem luz sobrando as pupilas se fecham para limitar a luminosidade captada pelos olhos. Ao contrário, quando está mais escuro, as pupilas se dilatam aumentando o orifício para captar mais luz que agora é escassa. A quantidade de luz que entra nos olhos é proporcional à área A do orificio praticamente circular. Esta área depende do quadrado do raio (r²) do orifício. Assim, se o diâmetro da pupila dobrar, a quantidade de luz captada será multiplicada por 4 (2² = 4) compensando a falta de luminosidade. E, se ainda assim houver pouca luz a ser captada no ambiente, nosso organismo ainda tem um "plano B": a Rodopsina. Trata-se de uma substância proveniente da vitamina A e que é capaz de "dopar" os bastonetes, células nervosas da retina(3) responsáveis pela diferenciação da quantidade de luz, aumentando a sua sensibilidade. Os bastontes ficam"turbinados", mais eficientes, e passamos a ter um ganho extra na luminosidade da imagem final conjugada pelo olho. É mais ou menos o mesmo efeito de quando aumentamos o brilho de uma tela de TV ou computador. E, para tomar um exemplo bem prático, é o que acontece se você chega atrasado na sala de cinema e o filme já começou. Ao deixar o saguão (onde é bem iluminado) e entrar na sala de projeção (com pouquíssima luz ambiente), a sensação de "cegueira" imediata é bem desconfortável. Geramente não se vê nada a princípio e a escolha de uma poltrona vazia para sentar é quase impossível. Mas, se esperar alguns segundos, as pupilas dilatam e o problema é minimizado. Em alguns minutos já dá para ver um ambiente penumbral e distiguir silhuetas de pessoas, poltronas e outros obstáculos. Aí já é a Rodopsina entrando em ação. Portanto, para ver bem o céu noturno é preciso "preparar os olhos", ou seja, buscar um local bem escuro. E quanto mais longe da poluição atmosférica e luminosa dos grandes centros, melhor. Em condições de pouca luz as pupilas ficarão dilatadas ao máximo e a Rodopsina vai começar a atuar. Se o céu estiver bem limpo, dez minutos de escuridão já são suficientes para fazer brotar um céu noturno cravejado de estrelas. Em meia hora a sua visão estará sensibilizada e adaptada ao máximo. Já presenciei muitos alunos em cursos de Astronomia comentando surpresos "Eu não sabia que tinha tantas estrelas assim! E muito menos que dava para vê-las". Tem sim! Um monte delas. Mas a maioria não vemos por causa das poluições atmosférica e luminosa e também porque nossos olhos quase sempre não estão "preparados" para este nível de percepção. Em boas condições dá para ver até um braço da Via-Lactea, nossa galáxia espiral. Estamos dentro dela mas podemos "espiar para fora" e ver um pedaço de um dos seus braços que aparece estendido e esbranquiçado contra o fundo negro do céu noturno. É belíssimo! E essa aparência "leitosa" justifica o termo Via-Láctea que significa "caminho de leite". Também é bacana de se ver as "estrelas cadentes" ou "meteoros" que são rastros de matéria incandescente deixados por corpos sólidos que vêm do espaço e penetram na nossa atmosfera. Pela alta velocidade em que viajam, sofrem aquecimento por fricção com as partículas da atmosfera e acabam se desintegrando deixando um rastro brilhante bem característico. O fenômeno é muito menos raro do que a maioria das pessoas pensa. Um pequeno grão de matéria já é capaz de produzir o efeito. Só que, para ver, tem que ser num local ideal, bem escuro, sem poluição, e com os olhos já adaptados à situação de escassez luminosa. Outro detalhe importante: se estiver muito escuro e precisar usar iluminação artificial para caminhar com segurança, dê preferência para a luz vermelha. É ela a que menos sensibiliza os bastonetes e mantém a Rodopsina em ação. Isso mantém as pupilas dilatadas e garante maior eficiência bioquímica do sistema. Existem lanternas que já vêm com cobertura vermelha para a lâmpada. Se não tiver uma dessas, pode improvisar cobrindo a fonte luminosa com papel celofane vermelho. Se for o caso, use duas ou mais camadas para atenuar ao máximo a luminosidade. Lembre-se de que uma fonte de luz branca na escuridão da noite joga contra a qualidade das observações. Ao mínimo aumento de luminosidade as pupilas se fecham e a Rodopsina é cortada. A qualidade da observação a olho nu cai bastante. Com luz vermelha o problema é contornado de forma muito satisfatória. :: Quem é quem na imensidão do céu? Depois que descobrir a enorme quantidade de pontinhos luminosos que podemos observar no céu noturno você vai, com certeza, querer saber "quem são eles". Quais os nomes das constelações(4)? Quais os nomes das suas principais estrelas? Dentrre estes pontinhos luminosos, alguns não são estrelas, são planetas. Como saber quem é planeta e quem é estrela? E tem mais. Na medida em que a Terra realiza o seu movimento diário de rotação, temos a impressão de que é o céu quem gira. E esse movimento aparente, visto daqui do hemisfério sul do planeta, se dá ao redor do pólo sul celeste. É muito divertido tentar detectar esse movimento que ocorre à uma taxa de 360 graus/dia = 360 graus/24 horas = 15 graus/hora. Experimente! Falarei sobre isso em futuro post dedicado ao pólo sul celeste e ao Cruzeiro do Sul. Para ajudar nesta tarefa de observar e reconhecer astros existem os Planisférios (ou Cartas Celestes Móveis) que são muito interessantes e fáceis de manipular. Normalmente são discos de papel que simulam o movimento de rotação aparente do céu (na verdade a projetação do movimento diário de rotação da Terra). Com as mãos você ajusta data/horário para uma determinada região (latitude) do globo terrestre e uma máscara, também de papel, delimita o céu visível naquele local e naquela data/hora. Trata-se de um simulador manual do céu com o qual é possível recriar em pequena escala um céu artificial com as principais contelações que podem ser vistas nos limites do seu horizonte e em relação aos pontos cardeais norte , sul, leste e oeste. Eu tenho, já faz tempo, a Carta Celeste do Brasil, um planisfério do renomado astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão editado pela Bertrand Brasil.
 Carta Celeste móvel ou Planisfério do Mourão
 Máscaras com janelas de papel simulam o horizonte doo observador
Já faz muito tempo que não vejo este material disponível nas livrarias. Penso que esteja esgotado. Mas, para minha supresa, descobri o Planisfério de As Maravilhas do Céu Estrelado (foto abaixo) de autoria de João Batista Salgado Loureiro e Marco Aurélio Loureiro, pai e filho e que já devem ter observado o céu juntos muitas vezes. Eu não disse que olhar o céu em boa companhia é ainda melhor?
 Planisfério de As Maravilhas do Céu Estrelado
 Neste modelo a máscara é em acetato
 O usuário ajusta manualmente no disco a data e a hora
Este material é vendido pela internet aqui. E custa muito pouco, em torno de R$ 18,00 (+ frete). É muito bem feito e durável, o que torna a sua relação custo/benefício fantástica. Os organizadores da OBA - Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, comandados pelo dedicado prof. João Bastista Canalle da UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro, editaram no ano passado um planisfério que foi enviado para as escolas participantes do evento. Muito legal a iniciativa.
 Planisfério especial da OBA também com máscara de acetato
Se você estiver sem grana, vá juntando aos poucos e logo terá o seu planisfério em mãos. Mas, para não perder tempo, dá para baixar da internet uma versão para imprimir e montar. Funciona bem e vai servir como guia para as suas primeiras observações. Clique aqui para fazer download (site da profa. Mária de Fátima O. Saraiva da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Vale lembrar que os Planisférios têm uma limitação: só conseguem mostrar o fundo fixo das estrelas com as constelações. Para estrelas (ou constelações) prevalece o movimento de rotação da Terra que pode ser simulado por uma simples rotação de um disco de papel. Com planisférios não há como encontrar as posições dos planetas pois estes têm movimento próprio e "errante"(5). Com treino você poderá encontrar uma constelação usando o planisfério e, se perceber uma "estrela diferente" por ali, saberá que se trata de um planeta. O ideal é usar um Anuário Astronômico, publicação onde tabelas trazem as posições dos planetas em relação às constelações ao longo dos meses do ano. Com a experiência um astrônomo amador consegue encontrar planetas e estrelas sem auxílio algum. Mas isso vem com o tempo. Também dá para usar um computador com software específico para simular o céu. Falaremos sobre isso oportunamente.
:: Leituras indispensáveis 
Se você começar a olhar o céu noturno, da forma correta, garanto que vai se apaixonar. E vai querer mais e mais. E, se não tiver alguém experiente para orientá-lo, existem boas leituras capazes de agilizar bastante o processo. Sugiro dois livros fáceis de ler/entender e com custo bem razoável: - Manual do Astrônomo - Uma introdução à Astronomia Observacional e à Construção de Telescópios
autor: Ronaldo Rogério de Freitas Mourão editora: Jorge Zahar Editor páginas: 152 ISBN: 85-7110-296-1 - Rumo às Estrelas - Guia Prático para Observação do Céu
autor: Alberto Delerue editora: Jorge Zahar Editor ISBN: 85-7110-526-x páginas: 88
O primeiro é mais completo. Mas ambos são bem práticos e vão direto ao ponto dando boas dicas práticas sobre como observar o céu e procurar/reconhecer os objetos mais interessantes. É isso! Boas observações! Depois vem aqui e me conta se não é mesmo maravilhoso! Combinado?
Este é o primeiro post daqui do Física na Veia! especialmente dedicado ao Ano Internacional da Astronomia cujo slogan é O Universo Para Você Descobrir. Descubra-o!
No menu da direita existe uma coleção de textos sobre Astronomia e Astrofísica já publicados ao longo da existência do blog. Veja em "especiais temáticos", banner Astronomia. (1) Fotos de longa exposição são feitas com câmeras capazes de ficar abertas por longo tempo para captar bastente luz. Com elas é possível fotografar astros bastante tênues e muitas vezes invisísveis a olho nu. Nestes caso é preciso montá-las num sistema com step motor para compensar a rotação da Terra e garantir a nitidez da foto. Caso contrário, durante o tempo de exposição prolongado a Terra gira bastante e a foto sai toda borrada. (2) Lunetas são instrumentos feitos apenas com lentes e também são chamadas de telescópios refratores. Telescópios que usam lentes e espelhos são conhecidos como telescópios refletores. (3) Há dois tipos de células nervosas na retina: os cones e os bastonetes. Cones são especialistas em diferenciar cores. Já os bastonetes são responsáveis pela diferenciação de ambientes mais ou menos luminosos. Em condições de pouca luz os bastonetes têm que trabalhar mais e melhor para garantir a qualidade da visão. (4) Constelação são agrupamentos visuais de astros. Vistos daqui da Terra parecem estar próximos entre si. Na verdade, eles podem estar a diferentes distâncias da Terra e a sensação de agrupamenteo é meramente visual. (5) Ao longo dos meses os planetas se movem contra o fundo fixo das estrelas. Aliás, o termo planeta significa "astro errante".
Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 21h48)
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