::: BRINCANDO DE 'LEGO' COM ÁTOMOS DE CARBONO :::
 O nobre diamante lapidado e a grafite
Acabo de ler notícia no UOL sobre a venda de um diamante bruto de 493 quilates por US$ 10,4 (aproximadamente R$ 18 milhões de reais pela cotação atual do dólar).
Existem alguns aspectos interessantes de Física por trás desta notícia. Confira a seguir.
:: Antes de mais nada, o que é um quilate?
Há pelo menos duas definições diferentes de quilate:
1. O quilate usado para classificar o ouro
O ouro é um metal precioso cuja pureza(1) (p) é medida em quilates. À pureza de 100%, ou seja, à uma peça (ou jóia) 100% feita de ouro, associamos o valor de 24 quilates. Tudo o que é feito de ouro 24 quilates só contém ouro, ou seja, tem 100 % de pureza.
Imagine, por exemplo, um "anel de ouro de 18 quilates". O que isso quer dizer? Vamos usar um raciocínio simples de proporcionalidade para responder. Acompanhe:
24 quilates ---------- 100 %
18 quilates ---------- p %
\ p = (18 x 100) / 24 = 75 %.
Concluímos, pelos cálculos acima, que um "anel de ouro de 18 quilates" é feito de uma liga metálica com 75% de ouro. Os outros 25 % são outras substâncias (prata, cobre, etc.) agregadas ao ouro para constituir a liga final.
Imagine, por exemplo, que o "anel de ouro de 18 quilates" tenha 100 g de massa. Então, 75 gramas (75 %) equivalem a ouro puro e 25 g (25 %) são outras substâncias.
2. Para minerais preciosos
Para o diamante ou qualquer mineral precioso o quilate não é uma medida de pureza e sim de massa(2), tal que:
1 quilate = 200 mg (200 milésimos de grama)
Mais uma vez fazendo um raciocínio simples de proporcionalidade, podemos descobrir quantos quilates tem num grama de massa. Veja:
1 quilate --------------- 0,200 g
m --------------------- 1,0 g
\ m = 1 / 0,2 = 5 quilates
Concluímos que cada 1 grama de massa equivale a 5 quilates.
Note que, usando a unidade quilate para massa, uma pessoa adulta, com 70 kg de massa (em média), tem 70.000 g e, portanto, 70.000 x 5 = 350.000 quilates. Isso nada tem a ver com pureza, certo?
O diamante citado na notícia, com 493 quilates, tem apenas 493 x 0,2 g = 98,6 g. Menos de 100 g! Uma pedrinha! Mas que pedrinha é essa para valer tanto assim? Confira a seguir as propriedades especiais desta pedrinha e que a tornam tão rara e cara.
:: Alotropia do Carbono
O diamante é uma das formas alotrópicas(3) do carbono(4), elemento químico de número atômico(5) 6. Veja abaixo como os átomos de carbono estão organizados para formar a estrutura do diamante.
uncp.edu

A grafite, parente muito menos nobre do diamante, também é puro carbono, só que com outro arranjo atômico. Tecnicamente, dizemos que a grafite é outra forma alotrópica do carbono. A figura abaixo mostra como os átomos de carbono estão organizados na estrutura da grafite.
asahi-net.or.jp

Diamante e grafite são, no fundo, a mesma coisa: carbono. Só que átomos de carbono arranjados em estruturas diferentes conferem ao material propriedades físicas radicalmente distintas. Tanto que, olhando as propriedades macroscópicas do diamante e da grafite, um nada tem a ver com o outro!
A grafite é escura, opaca à luz, condutora de eletricidade, e bastante maleável e quebradiça. O diamante é quase sempre incolor, transparente, não conduz eletricidade e é o mineral mais "duro" encontrado na natureza.
O termo "duro" aqui usado, na verdade, significa que ele não pode ser riscado por nenhum outro mineral. No entanto, em certos pontos da rede cristalina, especialmente em ângulos apropriados, o diamante é mais frágil. Nestes locais podemos quebrá-lo e ele adquire faces planas e bem definidas. Este processo, chamado de lapidação, confere à pedra bruta do diamante formas muito bonitas e atraentes e que, como veremos adiante, produzem efeitos ópticos interessantes.
Para fabricar diamantes, ou seja, compactar os átomos de carbono numa forma cristalina meticulosamente organizada, precisamos de condições específicas de temperatura (acima 400 oC) e pressão (acima de 30.000 atm). Abaixo da crosta terrestre, há mais de 150 km de profundidade, onde as camadas superiores da Terra exercem uma enorme pressão nas camadas inferiores, na camada do planeta chamada de manto, encontramos os fornos naturais capazes de forjar diamantes.
Mas os diamantes encontrados em minas estão, obviamente, a uma profundidade muitíssimo menor do que 150 km! Se não tem como a natureza fabricar diamantes tão mais perto da superfície terrestre, como os diamantes subiram? A explicação é simples: eles foram trazidos para cima por ações geológicas. Provavelmente vieram de carona com o magma em erupções vulcânicas que funcionaram como um elevador natural.
Para fabricar diamantes perfeitos precisaríamos reproduzir as condições de temperatura e pressão em que a natureza trabalha para forjá-los. or causa da enorme pressão necessária, ainda não se conseguiu produzir artificialmente cristais de diamante de tamanho considerável, apenas cristais minúsculos e sem aplicações comerciais.
A Nanotecnologia, ramo da ciência que manipula moléculas na escala do nanômetro (10-9 m), já conseguiu novos alótropos do carbono. Uma delas é o incrível Fulereno (C60), mostrado na figura abaixo, que tem 60 átomos de carbono arranjados em subestruturas de 12 pentágonos e 20 hexágonos acopladas e que formam uma esfera oca.
sgi.co.yu
Os Nanotubos de carbono, vistos na próxima imagem, também são obra da Nanotecnologia. Subestruturas hexagonais de átomos de carbono formam "folhas" que podem ser ennroladas em cilíndros ocos e que formam os nanotubos.

:: O Brilho e a Refringência do Diamante
Como já comentamos, ao contrário da grafite que é opaca, ou seja, barra completamente a luz, o diamante é transparente pois deixa a luz passar entre os átomos de carbono na sua estrutura. A transparência do diamante é uma propriedade óptica diretamente ligada ao arranjo destes átomos.
Mas tem um detalhe importante: a luz passa entre os átomos de carbono do diamante mas não passa ilesa. Isso não acontece só no diamante mas em todo material transparente. A luz, que é uma onda eletromagnética, mesmo podendo transitar entre os átomos, interage com eles e por isso pode ter maior ou menor dificuldade para atravessar a rede cristalina do material. Esta dificuldade sofrida pela luz é chamada tecnicamente de Refringência.
Podemos constatar a existência da Refringência medindo a velocidade da luz dentro dos diferentes materiais transparentes. Constatamos sempre que ela é menor do que c = 300.000 km/s (3.105 km/s = 3.108 m/s), a velocidade típica da luz no vácuo. É uma prova experimental de que, de alguma forma, o material "breca" a luz.
Estimamos a Refringência de um certo meio material calculando o valor do índice de refração absoluto (nmeio) dado por:

onde c é a velocidade da luz no vácuo e Vmeio a velocidade da luz naquele meio.
Veja na tabela a seguir os valores da velocidade da luz (para a cor amarela) em diversos meios materiais bem como o valor do índice de refração absoluto (médio) correspondente.
| Meio |
Vmeio (km/s) |
nmeio |
| Vácuo |
300.000 |
1,00 |
| Ar(6) |
300.000 |
1,00 |
| Água |
225.000 |
1,33 |
| Vidro |
200.000 |
1,50 |
| Diamante |
125.000 |
2,40 |
O diamante é muito mais refringente do que o vidro comum pois seu índice de refração absoluto (médio, para a cor amarela) é de 2,40 contra apenas 1,50 do vidro. Por isso mesmo a velocidade de propagação da luz no diamante é bem menor do que no vidro, assim como nos outros meios descritos na tabela.
A refringência alta do diamante tem tudo a ver com o alto grau de brilho que ele apresenta. E a entram duas idéias físicas muito bacanas:
- A Lei de Snell-Descartes
Quando a luz propagando-se num meio 1 (com índice de refração n1) tenta atravessar a fronteira com outro meio 2 (com índice de refração n1), sofre um desvio tal que incide com ângulo i medido em relação à direção normal (N) à fronteira dos dois meios e refrata-se com ângulo r em relação à mesma direção normal (N). Veja a figura que mostra r diferente de i, o que significa mudança de direção, ou seja, desvio:

A relação entre i, r, n1 e n2 na refração é dada pela Lei de Snell-Descartes:
Analisando esta lei concluímos que: I) Se a luz vai de um meio menos para outro mais refringente (n1 < n2), temos r < i, ou seja, o raio aproxima-se na direção normal (N). II) Se a luz vai de um meio mais para outro menos refringente (n1 > n2), temos r > i, ou seja, o raio afasta-se da direção normal (N).
- A Reflexão Interna Total(7)
A reflexão quase sempre acompanha a refração. Logo, é comum termos três raios de luz, ou seja, um raio único incidente e mas dois raios que "saem": o refletido e o refratado. No caso II descrito acima, com a luz afastando-se da normal (N), chegará um momento em que o raio refratado vai emergir tangente à superfície de separação entre os dois meios (r = 90o). Tal situação é um limite máximo pois, se aumentarmos o ângulo i mais um pouco, teremos um ângulo r ainda maior (r > 90o). Só que para r > 90o o raio refratado volta para o meio de onde vinha e, portanto, não é mais refratado e sim refletido. Neste caso acontece exclusivamente o fenômeno da reflexão, justamente o que chamamos de Reflexão Interna Total. A figura a seguir ilustra a idéia de valores progressivos de i até acontecer a Reflexão Interna Total.
O ângulo crítico a partir do qual deixa de existir a refração e começa a acontecer a Reflexão Interna Total é chamado de Ângulo Limite (L). Ele pode ser facilmente obtido pela Lei de Snell-Descartes na situação em que a luz incide com ângulo i = L vindo do meio mais refringente (nmaior) e refratando rasante à fronteira dos dois meios (r = 90o) tentando passar para o meio menos refringente (nmenor). Veja:

Isolando L na expressão acima encontramos:
Com a expressão obtida acima podemos calcular o ângulo limite L para um raio de luz que tenta atravessar a fronteira do vidro (nvidro = 1,50) para o ar (nar = 1,00). Veja:

Podemos fazer o mesmo para um raio de luz que tenta atravessar a fronteira do diamante (ndiamante = 2,40) para o ar (nar = 1,00):

Conclusão: Para ângulos maiores do que 42o a luz não consegue mais atravessar a fronteira do vidro para o ar. No caso do diamante, o mesmo já acontece para ângulos maiores do que 24o, bem menores do que 42o.
`
Para ângulos que excedem o ângulo limite L a luz pode ficar confinada dentro do material, sofrendo sucessivas reflexões internas. E como o ângulo limite para o diamante é menor do que o ângulo limite para o vidro, é mais provável que a luz fique sofrendo múltiplas reflexões dentro do diamante do que dentro do vidro antes de emergir para o ar.
Se o diamante for lapidado, o efeito ficará ainda mais contundente, como pode ser visto na ilustração abaixo onde o fenômeno está exagerado e fora de escala.

Note que, como o índice de refração é diferente para cada cor, então luz de cores diferentes terão ângulos limite L diferentes. Além de desvios distintos para cada cor, isso pode acarretar uma seleção de cores, ou seja, é possível que entre luz branca (mistura de todas as cores do espectro visível, do vermelho ao violeta) mas escape do diamante luz de uma única cor em dada direção.
Com as múltiplas reflexões internas da luz dentro diamante ele ficará como se fosse uma pedra "acesa". E com a seleção de cores, dependendo da direção que se olhe, a gema lapidada poderá apresentar brilhos em cores diferentes. O show óptico está garantido. É caro. Mas é realmente espetacular. E tudo graças a um arranjo especial dos átomos de carbono.
(1) A pureza de uma substância num corpo pode ser dada medindo a fração (ou porcentagem) da massa da substância em relação à massa total do corpo. (2) Massa é uma medida da quantidade de matéria presente num corpo e está intimamente ligada à quantidade e ao tipo de átomos que constituem o corpo. (3) Formas alotrópicas são todas as variedades de materiais que se pode conseguir usando o mesmo elemento químico como base, alterando apenas o arranjo atômico. (4) O carbono é o elemento químico associado à vida porque está presente nas moléculas orgânicas. O corpo humano possui 18% de sua massa em carbono. (5) O número atômico é, por definição, a quantidade de prótons presentes no núcleo de um átomo. Sendo assim, cada átomo de carbono possui 6 prótons no núcleo. (6) O ar é ligeiramente mais refringente do que o vácuo. Mas neste post, onde não pretendemos extrema precisão, as velocidades da luz no vácuo e no ar foram consideradas idênticas, o que torna os índices de refração também idênticos a 1,00. (7) A Reflexão Interna Total é o mesmo fenômeno que garante o confinamento da luz nas fibras ópticas. Logo abaixo há um link para um post sobre as Fibras Ópticas que dá mais detalhes do seu funcionamento.
Já publicado aqui no Física na Veia!
Um grande abraço. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 14h48)
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