::: ARCO-ÍRIS: CAPRICHO DA NATUREZA :::

Acabou de cair uma chuvinha rápida e rala, típica de um final de tarde de verão, com o Sol quase se pondo.
Abro a janela e não posso ver o Sol, que está às minhas costas, do outro lado do prédio. Mas dou de cara com um Arco-íris. Espetáculo gratuito. É sempre assim quando o Sol está às nossas costas e na frente temos uma "cortina" de gotículas de água na atmosfera.
Clique para ampliar Irresistivelmente e quase sem pensar, pego o celular e bato uma foto. Infelizmente o CCD*1 da câmera do celular não tem a qualidade necessária para reproduzir o que vejo com os olhos. Mas o resultado está aí ao lado. Alguns fótons*2 foram registrados e temos uma imagem que imita precariamente a natureza (clique nela para ver uma versão ampliada).

Toda vez que a luz passa de um meio para outro acontece o que chamamos em Física de Refração. Na Refração é comum acontecerem duas coisas com cada cor componente da luz visível (ou luz branca*3):

1) Mudar de direção, ou seja, sofrer desvio;

2) Mudar de velocidade, ou seja, viajar com rapidez diferente.

Os dois detalhes acima estão previstos pela Lei de Snell-Descartes*4 [ nar.sen(i) = nágua.sen(r) ] onde nar  e nágua são os índices de refração absolutos do ar e da água (de valores aproximadamente 1,00 e 1,33, respectivamente) e que dependem da velocidade de propagação da luz em cada um dos meios (veja as equações nas caixas amarelas ao lado onde aparecem as velocidades da luz no ar var, na água vágua e no vácuo c). As grandezas i e r são, respectivamente, os ângulos de incidência e de refração da luz.

Assim, quando a luz branca passa do ar para dentro de uma gota de água presente na atmosfera, está mudando de meio, ou seja, sofrendo Refração. A luz de cada cor sofre um desvio diferente e passa a ter uma velocidade também diferente na água. A cor mais veloz será o vermelho, que sofrerá desvio menor (menor valor de r). O violeta, na outra ponta do espectro, terá menor velocidade mas vai sofrer desvio maior (maior valor de r). Em outras palavras, as cores deixam de estar misturadas e aparecem individualmente. Parece mágica mas é Física pura. Quando as cores estavam juntas, tínhamos apenas a sensação de luminosidade típica da luz branca*3.

Normalmente, numa única Refração, a separação de cores é muito pequena para ser percebida. Mas na gota, a luz entra numa das faces, reflete-se na outra face e volta para dentro da gota até sair novamente pela face que entrou. Note que são duas refrações, uma na entrada e outra na saída da luz na gota. E a segunda Refração só reforça a separação de cores que já havia acontecido na primeira. É um capricho da natureza para evidenciar os componentes coloridos da luz branca!

Quando olhamos para o Arco-íris, nossos olhos são o vértice de um cone de luz cores distintas. O que vemos é a borda da base deste cone, formando um arco no céu. Assim, duas pessoas jamais podem ver o mesmo Arco-íris pois cada uma tem seu próprio cone de luz, com o vértice posicionado nos seus olhos. É claro que o Arco-íris de uma pessoa é um "clone" óptico do Arco-íris da outra. Mas, tecnicamente, são diferentes!


* 1 – CCDCharge Coupled Device ou Dispositivo de Carga Acoplada. É uma matriz de sensores fotoelétricos, também chamados pixels, arranjados em linhas e colunas. No caso da foto acima (veja versão maior clicando na foto pequena), o CCD usado tem 640 pixels na horizontal por 480 pixels na vertical.
Observação: Cada sensor, ao ser atingido por um fóton (veja definição abaixo), libera um elétron. Este fenômeno físico é conhecido como Efeito Fotoelétrico e foi explicado de forma original por Albert Einstein (1879-1955) em 1905, 100 anos atrás, no ano mais produtivo da carreira científica deste grande físico.

* 2 – Fóton, de acordo com a Teoria Quântica da Luz, é cada pacotinho (ou partícula) de luz ao qual normalmente atribui-se a energia E dada por E = h.f (f é a freqüência da luz e h a constante de Planck). O CCD vai registrando cada fóton que chega na sua superfície, em cada elemento da matriz de sensores de pixels e, a partir de um processo de somatória (ou integração), forma uma imagem.

*3 – Luz branca é a luz composta por fótons de todas as faixas de freqüências visíveis, que vão do vermelho (~ 4,0.1014 Hz) ao violeta (~7,5.1014 Hz). Isaac Newton (1643 -1727) já sabia da composição da luz branca pois separou as faixas de cores usando um prisma triangular que produz duas refrações. Da mesma forma, Newton juntou as cores separadas e conseguiu recompor a luz branca. Esta descoberta faz parte da publicação Opticks (abril de 1704) que completou 300 anos em 2004.

* 4 - Willibrord Snell van Royen (1591 - 1626), físico e matemático holandês que descreveu a Refração de forma mais completa e pela primeira vez em 1621. Snell nunca publicou a sua teoria oficialmente. Ela apenas ficou registrada em seus manuscritos. René Descartes (1596 – 1650), físico e matemático francês que em 1637 publicou um trabalho no qual descreve a Refração da luz com a notação tal como hoje conhecemos. Apesar deste grande feito, Descartes é mais conhecido pela criação do Sistema Cartesiano de Coordenadas.





Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 19h13)



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  ::: PNEU SEM AR :::

 


O Tween, num carro de passeio e também numa máguina pesada 

As carroças e carruagens usavam rodas maciças de madeira revestida com metal em contato com o solo. É claro que o impacto com o chão duro era muito desconfortável  para os passageiros.

Os primeiros carros, veículos semelhantes às carruagens mas que aposentaram os cavalos substituídos por um motor à explosão, usavam aros de borracha maciça ao redor das rodas que eram quase sempre de madeira. Foi um grande avanço.

Os pneumáticos, assim chamados por serem inflados com ar ("Pneo" significa "soprar, inflar"), apareceram bem depois e continuam presentes nos veículos até hoje. Inicialmente os pneumáticos eram compostos de de uma câmara de ar que ficava entre o aro da roda e o que chamamos atualmente de pneu. Houve muitas evoluções tecnológicas e hoje é bastante comum usarmos pneus sem câmaras. Mas já faz bastante tempo que o ar é um elemento importante na estratégia de minimizar o impacto das rodas com o chão.

Michelin, prometendo uma verdadeira revolução no mercado, acaba de anunciar o sistema Tweel (tire + wheel = pneu + roda, em inglês). O Tween é um "pneu" que opera inteiramente sem ar. Alguém poderia até dizer que pneu sem ar é antes de tudo um paradoxo lingüístico. Está certo! Mas para a Michelin é pura tecnologia pois "Um novo século chegou e o Tweel mostrou seu potencial para transformar a mobilidade. O Tweel nos permite alcançar níveis de performance que simplesmente não eram possíveis com os pneus convencionais de tecnologia pneumática de hoje".

Tweel tem banda de rodagem de borracha e raios flexíveis que a unem ao centro, que por sua vez se liga ao eixo (veja fotos acima). Outras tecnologias de pneu sem ar também estão sendo desenvolvidas e devem começar a ser comercializadas no prazo máximo de 15 anos. Enquanto os carros não flutuarem, a idéia parece ser interessante.

Vale observar ainda que o novo sistema é um olhar simulatâneo para o futuro e para o passado uma vez que promete mudar os rumos do mercado no novo século mas volta ao século passado, ao velho sistema sem ar, só que agora com um banho de alta tecnologia acumulada por décadas.  

Para chegar ao Tweel, com certeza os técnicos e engenheiros da Michelin usaram muita Física. Viu só como a Física tem um enorme poder de mudar a cara do mundo à nossa volta?

 





Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 10h49)



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  ::: QUER MEDIR O SEU TEMPO DE REAÇÃO ? :::

No dois posts anteriores citei o tempo de reação de uma pessoa e a sua importância para a segurança no trânsito.

Você sabe quanto vale o seu tempo de reação? Sabe quanto vale o tempo médio de reação de uma pessoa normal e sóbria? Dá para medir isso? É uma boa idéia usar um cronômetro?

Eu diria que um cronômetro (como o da foto ao lado) controlado mecanicamente por uma pessoa não seria uma boa idéia pois o próprio tempo de reação dela para disparar/parar o instrumento afetaria de forma drástica o resultado final da medida.

Mas podemos usar uma régua. E, antes que você se espante com o uso de uma régua para medir tempo, explico o procedimento no qual vai precisar de uma régua de 30 cm de comprimento e duas pessoas que chamaremos de P1 e P2.

 

Procedimento experimental

1 – P1 segura a régua na vertical, pela ponta "30 cm" que deve estar para cima;

2 – P2 fica com os dedos polegar e indicador na outra ponta da régua, a ponta do "0 cm", fazendo uma "pinça", preparada para agarrar a régua a qualquer momento;

3 – Sem dar nenhum sinal, P1 solta a régua num certo momento e ela começa a cair verticalmente, em queda livre;

4 –Assim que perceber que a régua começou a cair, P2 deve tentar segurá-la firmemente com os dedos polegar e indicador, fechando a "pinça" (note que é justamente aqui que P2 vai ter que reagir a um estímulo externo e o seu tempo de reação vai aparecer no experimento);

5 –P2 pára a queda da régua num certo ponto que pode ser lido diretamente na própria escala graduada em cm. Este ponto indica exatamente o deslocamento (ou altura H de queda) da régua durante o tempo tR de reação de P2.

 

Análise teórica

Note que, como a régua cai em queda livre, sua aceleração é a própria aceleração da gravidade local, ou seja, a = g = 9,8 m/s² (constante de valor conhecido para o planeta Terra).

Como a aceleração é constante, teremos Movimento Uniformemente Variado (MUV).

Note ainda que a régua começou a cair a partir do repouso, ou seja, com velocidade inicial nula (v0 = 0).

Com o procedimento acima descrito conseguimos medir a altura H de queda da régua com aceleração constante g.

A partir da função horária dos espaços do MUV poderemos encontrar o tempo tQ de queda da régua que será exatamente o tempo de reação tR de P2.

Entendeu a idéia experimental?

 

Modelagem dos Dados

Partindo da função horária dos espaços do MUV podemos encontrar esse tempo. Acompanhe:

Na expressão acima, como já foi discutido no tópico "análise teórica", DS = H, v0 = 0, a = g = 9,8 m/s² = 980 cm/s² e t = tR. Substituindo estes valores na expressão acima teremos:

 

Terminando as contas obtemos a expressão que nos dará o valor de tR, ou seja:

 

onde a medida de H deve estar em centímetros (cm) para que o tempo tR seja dado em segundos (s).

 

Exemplo de aplicação

Se você mediu H = 9 cm na queda da régua, então a raiz quadrada de H dará 3, certo? Pela expressão acima, teremos tR = 0,045 x 3 = 0,135 s ou, ser preferir, 135.10-3 s ou ainda 135 ms (135 milissegundos).

Viu como uma boa idéia pode nos conduzir a um experimento interessante? Para os físicos, tudo é sempre uma questão de soltar a imaginação para bolar um experimento legal onde se possa medir o que se quer!

 

Observação

Como para imaginação não há limite, pelo menos em tese podemos medir tudo o que quisermos no Universo. A criação do experimento vai depender somente da imaginação do seu criador. A sua realização vai depender da viabilidade tecnológica necessária e do poder de fogo de quem vai patrocinar os custos do projeto. Grana e criatividade são ingredientes importantes para o progresso da Ciência!

 

Mão na massa (ou melhor, na régua)

Agora é hora de chamar alguém conhecido para ser P1 junto com você (P2) e medir o seu tempo de reação. Depois inverta, você é P1 e seu amigo será P2.

É importante repetir o procedimento experimental várias vezes, para tirar uma média do valor de tR, pois todo procedimento experimental tem um erro embutido. Se fizer o experimento com calma e atenção, chegará em valores bem próximos do real.





Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 13h23)



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  ::: CELULAR QUE "ENVELHECE" :::

mundosemfio.com.br

Li na semana que passou uma matéria na Folha Ciência On Line que afirma que uma pesquisa na Universidade de Utah, Estados Unidos, apurou que jovens entre 18 e 25 anos que simultaneamente dirigem e falam no celular diminuem o seu tempo de reação a tal ponto que seus reflexos ficam parecidos com os de um idoso!

Portanto, álcool e outras drogas podem afetar bastante a sua performance na direção, conforme já argumentamos no post anterior. Mas celular também atua como um elemento dispersivo da atenção ao dirigir.

Dizem os especialistas que, mesmo com o kit viva-voz, que libera as mãos, o problema existe uma vez que a atenção do motorista fica comprometida pois o foco central passa a ser a conversa e não o trânsito.

Concluindo:

bebida + direção = grande perigo

bebida + direção + celular = tentativa de suicídio (ou será homicídio?)

Que tal se cada um de nós fizer a sua parte, hein?!





Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 21h49)



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  ::: CARNAVAL, BEBEDEIRA, TEMPO DE REAÇÃO E INÉRCIA :::

 

Todo ano, no carnaval e em outras festas em que o consumo de bebidas alcoólicas aumenta, é comum o aumento de propagandas na TV e em diversos meios de comunicação sobre os perigos de dirigir alcoolizado.

Infelizmente, as estatísticas comprovam que nestes períodos sempre cresce o número de acidentes de trânsito com vítimas. Algumas destas vítimas são fatais e outras podem carregar seqüelas pelo resto de suas vidas. Isso é uma prova de que, apesar dos esforços, as pessoas não levam a sério o real perigo da combinação direção + bebidas alcoólicas.

O problema de dirigir alcoolizado está ligado principalmente ao fato de que o nosso tempo de reação aumenta sob efeito do álcool. Tempo de reação é o tempo que demoramos para reagir a um estímulo externo.

Para exemplificar esta idéia, digamos que você esteja dirigindo um automóvel a 36 km/h (ou 10 m/s). Em outras palavras, o carro avança 10 m em cada segundo. Se uma criança distraída entra na frente do carro, você irá pisar no freio assim que perceber o fato. No entanto, demora um tempo entre o momento em que a imagem da criança forma-se na retina dos seus olhos, é enviada como impulso nervoso para o cérebro que a interpreta como um perigo e envia um outro comando, também como impulso nervoso, para o seu pé pisar rápido e firme no pedal do freio. Enquanto você não pisa de fato no pedal, o carro continua andando, com a mesma rapidez, avançando 10 m a cada segundo. Se a criança entrar na frente do carro exatamente a 10 m à sua frente, você precisa tomar a decisão e imobilizar o veículo em no máximo 1 s. Se demorar exatamente 1 s para reagir, não dá nem tempo de pensar e o acidente já aconteceu!

Também devemos levar em consideração o fato de que o carro não pára imediatamente. Por inércia, o carro tende a permanecer na velocidade em que estava e em linha reta (o que chamamos em Física de MRU). Mesmo com a força oposta, o carro precisa de um intervalo de tempo de desaceleração.

Dobre a velocidade para 72 km/h (20 m/s). Agora, a cada segundo o veículo avança 20 m. Por estar mais rápido, você tem menos tempo ainda para tomar uma decisão crítica e, por inércia, será ainda mais difícil imobilizar o carro.

Em rodovias, onde a velocidade dos veículos tende a ser maior do que nas ruas de uma cidade, a situação piora ainda mais. Há rodovias onde é permitido trafegar a 110 km/h, o que dá praticamente 30 m/s. Mesmo dentro da lei, agora temos um veículo que avança 30 m a cada segundo. Se, por imprudência do motorista, a velocidade for ainda maior do que a permitida, o problema só vai se agravando e os riscos crescem exponencialmente.

Existem ainda outros fatores a serem considerados. Sob efeito do álcool, a atenção do motorista diminui. Isso que dizer que a percepção de detalhes fica bastante reduzida, o que agrava ainda mais o problema. Para piorar de vez a situação, a maioria das pessoas fica mais corajosa sob efeito do álcool, o que no caso de um motorista não é vantagem alguma. O medo faz com que muitas vezes a gente recue perante uma situação de perigo. Medo é uma reação natural do organismo para proteger a nossa integridade e nos mantermos vivos. Com menos medo, um motorista corre mais, se arrisca mais, e faz manobras que sóbrio nem ousaria pensar em fazer.

Desta forma, está certíssimo dizer se beber não dirija, se dirigir não beba! E, mais do que simplesmente dizer e propagar esta regrinha simples para se manter vivo e íntegro, mais importante ainda é agir dentro dela.

Bom carnaval para todos, com muita alegria e responsabilidade sobre os seus reflexos, o seu tempo de reação e a inércia do seu carro!

Importante: Não é somente o álcool que altera a nossa percepção do mundo e o nosso tempo de reação. Outras drogas também podem produzir os efeitos semelhantes ou até piores. Citei o álcool pois, por ser uma droga lícita, acaba atingindo um número maior de pessoas.





Um forte abraço de 14TeV. E Física na Veia!
prof. Dulcidio Braz Júnior (às 18h27)



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Dulcidio Braz Jr
Físico/Professor


BRASIL, Sudeste, SAO JOAO DA BOA VISTA, Homem, de 36 a 45 anos

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